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domingo, 16 de junho de 2013

A alma humana é porca como um ânus

A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Grato

(Em homenagem a Luciana, meu amor)


Poetray

Grato! Por enxugar-me o pranto com o calor deste sorriso
e amenizar minha dor com este olhar de ternura e brilho 
cujos raios minh'alma aquecem; 
pois viver é isso, 
e muitas vezes, isso, agente esquece.

Vaguei pela escuridão sem nenhuma esperança 
_ e sem vontade de tê-las_, 
confesso: vagueei até encontrar-te; 
e ao vê-la, fui resgatado e liberto 
e novamente posto, deste lado oposto, 
sob tua face _ meu céu de estrelas.

Grato! Pela vida que se ilumina. 
Inda dói, perturba certa angustia no peito, 
_ mas nenhum receio que oprima _, 
é que o passado nunca é desfeito 
e cicatrizes são lembranças, essas não tem jeito, 
só o tempo cura certos males e seus efeitos.

Doce, doce, doce!... 
Água e fonte, perfume do campo 
brisa;
minha flor...
Grato, por enxugar meu pranto!


Itapevi-SP 12/06/13 




domingo, 9 de junho de 2013

Efeito dominó

Poetray

Sinto-me meio zonzo esta manhã. Acho que são os efeitos das notícias; todas as manchetes dos jornais televisivos hoje são desanimadoras e intragáveis. Não as citarei, pois são corriqueiras; exceto a vitória do Brasil sobre a França. Um placar expressivo.

Meu café da manhã tem sabor de chocolate, embora seja muito amargo o valor. O leite, o pão, o achocolatado dão à vida um belo sabor. Mas falta sucrílhos _ a marca que a criançada adora _, porque custam os olhos da cara. Queijo e frutas na mesa, nem se fala, já se tornou coisa rara.

Eu brinco com a colherzinha enquanto misturo o pó ao leite e penso na economia. O barulho irrita a mulher. E não, eu não sou economista nem tenho economias; o contrário é o que é.

A cabeça dói. Falta-me estômago para as injustiças. Ainda não inventaram “Engov” para alterar certa natureza psíquica.

Eu pago impostos sobre tudo que consumo. Pago pela escravidão, produtos e insumos. Eu pago para ser brasileiro. Pago pelo que fui e o que somos...


Chego à janela porque ouço cantar o bem-te-vi. “Cerração baixa, sol que racha”, o dia mostra a face de luz. Eu calço o tênis, me benzo, tranco a porta e caminho para a cruz.