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domingo, 9 de junho de 2013

Sombras

Sabe esses dias de inverno incrivelmente bonitos?
Desde manhãzinha o sol brilha. Poucos blocos de nuvens alvas dispersas sob o manto azul...
E aquela expectativa de ver "Ela"; aquela pessoa especial que é ainda mais bela que todo o esplêndido conjunto de encantos da natureza que adorna o dia. Mas no decorrer das horas, embora o dia permaneça lindo, vai dominando agente aquela sensação de que não vai acabar bem, algo ruim vai acontecer.

Aconteceu. Seis de junho, hoje, ano 2013, foi assim: Vivi a magia do sonho algumas horas do dia, e findou com a negritude da realidade envolvente da noite.
Mas, na verdade, há três dias já vinha sentindo um crescente pressentimento de ameaça de descontentamento e, nesse dia, eu sabia que seria o pico, o dia fatal da decepção.

Quando já se está esperando uma decepção ela não falha e sempre vem acompanhada. A tristeza é visita que não se atrasa, se é convidada comparece. Nunca é tão grave por já não ser total surpresa, absolutamente; mas parece que a vida ironicamente se reparte para lançar sobre sua cabeça uma chuva de descontentamento, em pancadas, de tempo em tempo, todo o dia, intercalando a cada despertar de um devaneio. Sim, quando se está amando se devaneia sempre, apesar das chuvas, apesar do tempo.

Pois bem, no fim do dia acabou o mistério. O tempo se estabilizou sombrio, e, dentro de mim, tempestuoso. Eu a vi com outro. Mas a natureza é sábia ao reger nossas vidas, tudo se renova independente das condições do tempo, dos pressentimentos e fantasias. Vale. Um novo amanhecer é sempre um desafio e recompensa.

sábado, 25 de maio de 2013

As vezes que chorei

As vezes que chorei...
Já chorei tanto!
Já chorei sem motivo.
Já chorei de dor, chorei de alívio.

Já chorei por hipocrisia, chorei feito bobo de tanta alegria.
Já chorei nos sonhos, nos pesadelos; 
Chorei por conta do dente, desembaraçando os cabelos...

Chorei muito. 
Chorei com medo. Certa vez chorei à-toa: chorei com medo de chorar. 
Chorei por uma pessoa. 
Às vezes amando chorei com medo de amar.

Já chorei em vão (não se deve chorar por perdão) 
Chorei sem graça; Chorei de pirraça. 
Eu também já fui criança neném, e chorei pedindo peito; 
Chorando, no afã do calor do leito.

Já chorei em demasia. 
E quem nunca já chorou de rir? 
Chorei de encantamento ao ver uma criança dormir.

Meu choro é riso sincero. É flagelo. 
É construção, congregação, dedo e martelo. 
Mas nenhum choro é tão puro, tão sincero, quanto a solidão do grito do quero-quero.

Chorei na despedida (aquele adeus...). 
Chorei tanto, tanto... pensei que ia secar o pranto. 
Chorei no reencontro. Chorei até passar do ponto. 
Chorei!

Um dia chorei vendo o noticiário; 
N'outro chorei ao abrir o armário.

Chorei pela África; tão negra! Tão singela! 
Ah! chorei orando por Nelson Mandela. 
Chorei tanto e me acostumei. 
Aquele povo... não sei; será que ainda os amo ou um dia os amei?... 
Acho que de tanto chorar me desumanizei-me.

Chorei, chorei..., por quê, já não sei.
Chorei no novo emprego, mas chorei por apego.

Chorei no parabéns pra você E chorei no velório do inimigo.
Chorei contigo.

Chorei lendo Drummond que me fez compreender Pessoa, 
e uma lágrima rolou ao ritmo do jazz de Villas Boas.

Chorei ontem e agora; mas qualquer hora é hora.
A vida é um palco e um divã. Quem me dera! 
Quisera mesmo, nesse palco, poder chorar amanhã.

Chorei a cada nascimento de um filho; (aí chorei por abrigo). 
Chorei por esporte. Pelo povo do norte. 
Chorei por angustia, inconsolado, pela morte. 
Chorei até perder o brilho. 
Chorei por alguém num asilo.
Chorei por ela.

Chorei no fim da novela
Chorei calado.
Chorei pelo leite derramado.
Chorei sem entusiasmo.
Chorei durante um orgasmo (em silêncio todos choram por isso). Chorar é para os olhos uma espécie de compromisso.

Chorei ao ver um bicho abatido. 
Chorei de bronca com Deus e de mal comigo. 
Chorei debruçado num ombro. 
Chorei escondido nos escombros. 
Chorei nas entrelinhas de poemas, por equilíbrio,
no meu livro.

Na ficção chorei.
Chorei minha autobiografia.
Ia me esquecendo: chorei ao ver o mar; E chorei olhando estrelas ao luar. Um dia chorei por engano, depois "deschorei". "errar é humano!"
Não, nunca chorei de ódio, chorei o óbvio; chorei pela raiva ter me vencido. 
 Chorei perdido.

Chorei no natal, na páscoa, lava-pés, via-crúcis, ressurreição... Ah, Deus! 
Quanto ainda por chorar! agora que tenho consciência das minhas fraquezas! Mas tudo bem.
Beleza!