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sábado, 20 de junho de 2020

Nunca mais, nunca mais


Nunca mais, nunca mais.
Nunca mais
Atrevi-me dizer que te amo.

Seguro a voz na ponta da língua
Já por entre os dentes escapando.
E engulo de volta, a seco, as palavras.
Também desfaço dos olhos o brilho tirano.

O que escapa é vento, brisa morna
Que move levemente os ramos.
Não faz nenhum mal,
Jamais este amor lhe causaria algum dano.

Amor não faz mal a ninguém, garanto.
Nenhum estrago intencional;
Se o fizer é por engano.

Nunca mais me atrevo dizer que te amo. Nunca mais.
Agarro pelas costas as palavras
Que por brechas vão escapando
E lhes mostro outro caminho, amargo
Pelo qual, inocentes, vão se afogando.

Nunca mais direi...
A não ser que você peça,
Nunca mais vou dizer que te amo.

Represo assim este rio.
O que retenho é lava,
Liquido de amor que flui borbulhando.
Devia ser frescor para o mundo, mas
O mundo e você tem outros planos.

Em mim, volta à magma e desce queimando
Destruindo tudo; exceto
Este secular desejo de vida
Acordado há poucos anos.

Portanto a este amor engulo
Para não vomita-lo, de novo,
Ao desengano.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Papai Noel às Avessas



Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai  entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do  aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 24 de novembro de 2012

Bem Social


O bem que você me faz

Ah, sol! Assim você acaba por fazer de mim um poeta... ou no mínimo, um bom cidadão.

Agora vivo cheio de cuidados:
Faço a barba regularmente
Escolho bem as roupas
Cuido da saúde
Cuido da palavra
Cuido do caráter
Cuido do espírito;
Quero ser o homem que você merece:
O homem perfeito!
Caso não me queira,
A sociedade ganha,
Um novo homem; eu.