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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Nick e eu


Chegou a hora de assumir nosso relacionamento.
Meu amigo Nick e eu não temos medo de fogos, mas nos incomoda muito o estrondo e o destino final das bombas. É muito ruim ser o alvo, assim, involuntariamente. Por isso hoje compartilhamos o sofá. Se estivéssemos em guerra, tudo bem. Acredito que nas guerras o barulho dos tiros incomoda menos do que o silêncio absoluto. Tem silêncio que ensurdece a alma. O silêncio que antecede a morte; O silêncio de uma paixão...

Eu estou em guerra,  mas é com o coração _ conflito de amor _, a razão queima feito pólvora. O coração se comprime; e compactado o amor inflama.

Nick parece entender o que penso e respeita minha imobilidade. De vez em quando ele abraça meu pé e tenta me arrastar para fora para brincar. Mas logo desiste, cruza as patas e apoia a cabeça sobre elas. E ali fica encabulado, a discorrer sobre tudo. Às vezes ele ri ou suspira profundo. A solidão é muito ruim; nisso nós concordamos. Sei disso porque após grunhir como um porquinho, ele baixou a cabeça e ficou me espiando, cheio de manha... compaixão talvez. Então, eu escrevo mais um verso e o leio para ele. Ainda bem que temos um ao outro!...

Embora ele seja um cão, já tenha tido sarna, mije por todo canto e solte pelos, gosto dele. Eu também tenho meus defeitos: sou alérgico, pouco sociável e estou aprendendo a latir. Às vezes acho que devíamos inverter os papeis. Nick é muito amável, sabe muito bem como conquistar e é fiel. Eu não. Ele seria um bom intelectual; um sábio talvez. Eu daria um ótimo cachorro de caça ou cão-guia. Mas reconheço que livre mesmo são os vira-latas.

Essa noite de réveillon vou abraçá-lo e até deixar ele lamber meu rosto. Que extravagância!
Tudo bem, melhor não prometer nada. Pra mim as coisas não funcionam assim. Nenhum dos meus planos deu certo. Estou longe de... Não viajei... Não bebo, não fumo e, e nessas noites de barulho sofro de insônia. Acho que vou fazer pão de queijo pra mim. Ah, vou dar repolho e cenoura para o meu amigo. Ele adora!
Aí amigão, feliz ano novo!


domingo, 28 de dezembro de 2014

Não é conselho, é observação




Ninguém, em sã consciência, jamais deveria dizer: perdi meu tempo.

Eu pensei ter perdido meu tempo e ele, o tempo, severamente se manifestou em mim.
Aí sim, eu me perdi no tempo.

Eu pensei que era perda de tempo, o amor.
Depois, eu pensei estar perdido de amor enquanto o amor se manifestava em mim.
Por isso o amor castigou-me.
Fui punido pelo amor e pelo tempo.
Ora, eu estava amando!
Ninguém, ninguém se perdi por amar;
Pelo contrário, no amor é que a gente se encontra.
Ah, mas eu amei. Como amei!
Amei tanto que perdi a noção do tempo.
E acredite: amar é um delicioso exercício.
O amor nos mantém em completo movimento. De corpo e alma.

Viver é estar em constante movimento, e amor nos põe em movimento para viver.
O amor nos deixa em completa harmonia com a natureza.
Nada que se faça é em vão, exceto ficar em inércia.
A inércia, sim, é perda de tempo.

Quando eu corri, corri, corri tanto e mesmo assim perdi o ônibus, fiz uma nova amizade.
Estudei pra caramba, mas fiquei de DP;
Aí eu prendi em uma semana o que eu achava impossível.
Trabalhei muito e não fui recompensado. Mas adquiri experiência.
Quis morrer, mas aprendi muito ao questionar a vida.
Reverti o desencanto e venci a depressão.
O meu hobby patético tornou-se um livro interessante;
Da minha história triste fiz um lindo poema de amor.
Saí pra andar à toa e tive uma ideia brilhante.

Nada que se faça em vida é em vão.
Depois da morte eu não sei. Mas pensar nisso também não é perda de tempo.
Não existe tempo perdido. O que acontece é tempo mal gasto, mal vivido;
Exercício mal feito;
Indecisão na encruzilhada _ Ser ou Não Ser.
Falta de fé;
Falta de dedicação ao ofício de viver.
Pense nisso.

Feliz 2015!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Tentação


Hoje em dia...
É fácil entrar no mundo das contravenções. Nessa época de festança, então!...
Ufa! O natal passou. Mas vem aí o ano novo.
Nessa época você recebe velhos amigos, ou antigos colegas e parentes, e eles ficam avaliando seu barraco, medindo você e seu espírito _ como se tivessem capacidade pra isso. Muitos, mal conseguem suportar um sopro mais forte de brisa. Tremer-se-iam.

Bem, contam uma vantagem aqui, outra sobre o modismo, e por aí vai. Depois o assunto são os bens: casa, economia, rendas, carros _ ai, meu Deus! _ carro é demais; quando começam falar de carros... Ninguém merece!
_ E você, que carro tem?
_ Não tenho.
_ Por quê?
_ Prefiro transporte público. Gosto de andar de trem.
   E olha para as pessoas ao redor e diz: "Ele sempre foi brincalhão assim. E meio estranho também, não é verdade?".
Os outros riem.
_ Então tem viajado muito, né? Quando foi à Europa?
_ Nunca.
_ Quando voltou a Minas.
_ Faz tempo.
_ Praia?
_ Tenho trabalhado muito.

A visita, fingindo desconforto, então, olha em volta e encerra o interrogatório com a pergunta fatal:
  _ Pra quê?
  E metendo a mão no bolso, pega o Smart chic e começa a exibir fotos de viagens, hotéis, aeroportos e carros.
Você que não tem nem um jerico amarrado no quintal pensa o quanto seria útil um."poiszé" que o levasse correndo atrás daquele sorriso lindo, que está ausente, e que ilumina a sua vida; mas, pelas suas condições, essa pessoa o trocou por outro, justo nessa época festiva. Que coisa, não?!

Generosamente sua visita te oferece um cartão ou recomenda alguém, oferece um estranho emprego, como se recomendasse a um médico e terapeuta. Mas você precisa mesmo é de exorcismo. Isso mesmo. Aquele sorriso que ilumina a sua vida.
Então você quase engasga, mas engole a saliva.
  _ Gente, eu estou bem!