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sábado, 7 de janeiro de 2017

Totalmente nu

Eu não estou aqui, penso, e esse cara não sou eu.
EU estou no silêncio de um quarto, ouvindo música e esperando alguém. É um quarto aconchegante. A cama parece muito grande e espaçosa. Medida assim, mentalmente, é difícil acreditar que sempre falta espaço e se torne tão pequena a ponto de eu quase cair na ansiedade de trocar de posição sem interromper o prazer. Eu sempre tenho que me firmar de alguma maneira quando executamos giros improvisados. Há um vazio enorme entre a interrupção de uma seção de carícias gostosas e o início de outra que nenhum de nós imagina qual seja. Mas, por melhor que sejam, depois de um tempo, o carinho se torna monótono e enfadonho, por isso eu sinto uma incontrolável necessidade de mudar, então invertemos, trocamos posição, repetimos ou recomeçamos. Recomeçamos sempre por um olhar de breve contemplação e um afago. Gosto de contemplar seus olhos e seus seios... Mas o meu pensamento está sempre na sua bunda maravilhosa e na sua boca. A boca é para onde sempre retorno em busca de um beijo...
Um grito quebra o silêncio após a ultrapassagem de um carro. Odeio palavrões.
No ônibus lotado é aonde sinto maior necessidade de criar uma fantasia para fugir da realidade. É desumana essa tortura pela qual o trabalhador é submetido para ir para a tortura maior de ganhar o pão de cada dia. Por isso eu já tenho um mapa traçado de pontos turísticos para onde me refugio. Todos são paraísos eróticos. Porém, no ônibus não é o melhor lugar para esse tipo de pensamento. De pé tem o perigo de ser acusado de estupro ou atentado ao pudor; sentado, tem o desconforto de ter de ficar ajeitando o pau, que parece sempre cresce mais do que é normalmente e se machuca no tecido ou se enforcando num pelo da região pubiana. Além disso, na hora de levantar sempre tem uma mulher ou um gay de olho no bendito volume estufando as calças. Às vezes uma mancha denuncia o pensamento libertino. “Eu não estou aqui, esse cara não sou eu”, penso.
Somos julgados até pelos nossos pensamentos. Ninguém merece!
Adoro ficar nu. Nu, sinto-me beijado por todos os espíritos. A brisa me acaricia, o sol me acaricia, a chuva me lambe da cabeça aos pés e se escorre em deleite levando consigo o meu cheiro. Assim me sinto inteiro sexo.
Mas também tem as chamas, a enorme língua de fogo do inferno tentando fritar meu cérebro, queimar a minha consciência, condenando minha alma ao sofrimento eterno. Desde criancinha, antes mesmo de saber que era gente, fui atormentado com a ideia de que ser feliz é pecado. Sentir desejo é pecado. Gozar é pecado. Se para um homem isso é uma tortura, imagina para uma mulher?  É uma ferida que sangra sem parar, uma dor íntima, causada por um monstro que nossos pais e as religiões tornaram feroz soltaram dentro de cada um de nós inocentes filhos de Deus.
Eu cedi o lugar para uma mulher e ela me agradeceu com um sorriso lindo. Só o sorriso já seria o suficiente pela minha gentileza, mas ela é generosa. A cada arrancada ou movimento irregular do ônibus ela me olha e sorri. O meu pau estava esbarrando no ombro no ombro dela, por isso empurrei sutilmente o cara do meu lado me desloquei mais para o lado. Mesmo assim a cada movimento ela esbarra em mim. Fiquei meio torto. O ombro dela agora está encostado em mim.
Ela está curvada, segurando no banco da frente. Por que ela não fica encostada como todo mundo que está sentado? Ela me olha e sorri novamente. Os olhos também são lindos. Demorou mais me olhando dessa vez. Está olhando para... Será que estou com o zíper aberto? Esse maldito às vezes abre sozinho. Ela nem disfarça mais. Que descarada! Aí, meu Deus! Que delícia de peito! Por que ela tem de puxar a blusa assim? O decote já mostra tudo. Que calor é esse!? Ela vai se levantar.
_ Obrigado. Você foi muito gentil.
Parou na minha frente. Encostou a coxa em mim. Eu me afasto. Ela entrou no vão. Bunda e pau se acomodam. Ela não desce. Outra se senta no lugar. O garotinho se mexe e ela o sente e o encaixa. O vestido é fresquinho, tecido macio, fino, cheiro de amaciante, xampu talvez. Os cabelos longos, ainda úmidos, dançam no meu rosto. Está toda apoiada em mim. A outra nos observa. Não sei interpretar a expressão facial.
Descemos. Na estação entramos no mesmo vagão que logo lota. Ela está sempre de boca entreaberta. Parece que está sempre pronta para beijos, penso. Tantos corpos feios encobrem nossa visão.
A vida vai me despindo aos poucos. A cada hora cai um pedaço da minha fantasia. Estou completamente nu. Na verdade, já roubaram minha fantasia de nudez. Essa pele, esse cabelo, essa face, essa roupa, essa aparência enfim, nada disso sou eu. O que resta de mim é invisível. Só um pouco do que sou reflete em poucos instantes do dia, como um sol que da as caras e logo se esconde. Mas não se é o mundo ou eu que não merece a luz oculta que tão pouco irradia. Iluminar o que se a negritude é intransponível?
Eu não quero pensar em trabalho. Também não quero pensar nos enigmas dos desafios acadêmicos. Estou no vácuo e um montão de problemas cutucam meu cérebro. Em momento assim é difícil se agarrar a um bom pensamento, mas tenho de me agarrar a algum fio para me balançar enquanto me recobro o equilíbrio. Será que alguém consegue realmente ficar pelo menos um segundo sem pensar?
Quando sou flagrado totalmente nu as pessoas se assustam. Acham que sou muito alienado. Não sabem que é na alienação que é aonde existe vida. “Você pensa tanto!”, dizem. “Para tudo que você olha parece ver algo que ninguém mais vê.”

“A vida está ficando escassa tal qual o homem na sua real condição humana”, eu penso, mas não digo nada, não entenderiam.

sábado, 31 de dezembro de 2016

A desvantagem de ser um só.

Eu reconheço os meus erros e as minhas limitações. Eu tenho uma qualidade que é também um grande defeito: eu sou delicado. E essa qualidade me impede de ser um bom amante, por consequência, isso me impede de ser feliz. E como acredito que o amor e o prazer sexual estão entre as coisas que mais proporcionam felicidade, a cada dia me sinto mais e mais distante de fazer parte do ranking das pessoas felizes. Estou me sentindo excluído dessa elite. Ainda ontem uma pessoa me disse:
_Você é uma pessoa delicada, sensível, inteligente, muito especial.
Fiquei muito emocionado. As pernas tremeram. E não era pra menos, ela me fez um grande elogio. Ela disse que eu sou uma pessoa sensível e muito especial, no entanto, exatamente por isso não podia ficar comigo. Tá de brincadeira, né?! Isso doeu. Mas ela tem razão. Eu reconheço os meus defeitos. Agora, como corrigir isso?
Dupla personalidade todo mundo tem e eu sei lidar muito bem com as entidades que incorporo para transitar pela vida. Sei me comportar conforme as consequências e de acordo com o ambiente. Frequento lugares distintos.
Já fiz muita loucura. Sou capaz de arriscar a vida para ficar com uma mulher que me desperte interesse e faço de tudo para agradá-la, principalmente na cama; porém, sou delicado e sensível. Delicado demais pelo jeito. Na sequência ela disse que os poetas vivem a vida com muita intensidade. Disse também que sempre tomou cuidado para não me ferir. No meu caso, nesse em específico, eu precisava apenas ser bipolar e pular de um extremo ao outro. Dizem que esse é o segredo dos bons relacionamentos: saber ser o que esperam que você seja. Ou seja, tem que saber interpretar. Claro, de acordo com a situação. O homem tem de ser flexível. Todo homem pode e deve sim fazer de tudo para ser um bom amante e ser feliz.
De certa forma, no momento, ser delicado me impediu de ser feliz. Acho que eu devia ter sido mais ousado e agressivo diante dela. Talvez uma atitude mais determinada, mais marcante. Devia chegar chegando, como dizem. Acredito que o sucesso depende muito da nossa capacidade de realização e, sendo tão delicado, tenho certas limitações. Por exemplo, eu não consigo falar palavrão; tem mulher que adora ouvir e falar palavrões. Tem mulher que adora comportamento agressivo; eu não consigo agredir uma mulher. Embora a quem diga que eu sou agressivo com nas gentilezas. É difícil entender.
Eu reconheço que falhei, por isso estou empenhado em me tornar um homem mais interessante para as mulheres. Prova disso é que hoje, feriado, eu abri mão de trabalhar no meu artigo científico e até deixei de ir para a praia só para estudar o meu comportamento e traçar uma estratégia de mudança eficiente para botar de novo a minha vida nos trilhos. “O mundo muda o tempo todo”, diz a minha professora de administração, “e nós temos de acompanhar as mudanças e inovar para nos adaptarmos ao mundo e seguir em frente”. Acabei de ler isso quando tentava escrever sobre o comportamento humano dentro das organizações. Transferi essa reflexão para a minha vida pessoal e entendi que é hora de mudar, então fui buscar ajuda. Parece inacreditável, mas a mulher tem mesmo razão. Eu me deparei com vários depoimentos que comprovam o que as mulheres precisam e buscam num homem. Pasmem, não são delicadezas. É atitude e ousadia. Agora eu entendi o motivo de ter sido rejeitado, é porque sou muito comportado. Delicado demais, eu diria. Eu constatei isso nas minhas pesquisas que, aliás, são muito confiáveis. Afinal de contas não como contestar o próprio passado. Apesar de que... deixa pra lá. A seguir você vai poder conferir muita coisa.
Eu não recorri nem à internet nem aos livros comuns, porque existe muita coisa falsa por ai. Eu recorri aos apontamentos do meu velho diário. E veja só, as lembranças e os casos corroboram para a necessidade de uma mudança drástica e urgente caso eu queira voltar a viver as fortes emoções que eu tanto gosto. Leia e confira.
Mas atenção, por se tratar de fatos reais e de pessoas queridas, evidentemente, os nomes dos atores e os ambientes foram alterados; no entanto, as ocorrências são narradas tal como foram relatadas ao escritor ou vividas por mim que, nesse caso, sou proprietário do diário e cujo nome também foi substituído.
Confira o caso a seguir.

Briga de casal

Ambiente de Call Center. Prédio da operadora. Rua da Consolação. 3º andar. Departamento de Suporte Técnico. Sexta-feira-feira, 24/09/2010. Dia de Far Fan.
A porta do elevador se fechou. A escada estava interditada. O casal que vinha discutido pelo corredor do refeitório continuou na discutição.
_ Vai se foder, caralho! Piranha é sua mãe. Aquela vaca.
_ Não mete mãe no meio. Deixa minha mão fora disso.
_ Desculpa, vai. Você me tira do sério.
_ Pedi desculpe direito.
_ Ah! Você doido. Tá viajando.
_ Quem manda você ficar dano bola pra todo mundo. Só porque ele é chefe você fica toda derretida, mostrando os dentes.
_ Eu?! Ah, tá bom. E não igual a sua mulher não, meu.
_ Olha lá como você fala da minha mulher. Ela não fica se oferecendo pra qualquer vagabundo, não. É uma mulher direita.
_ Vocês homens são todos iguais. São machistas. Acham que só vocês podem tudo e as mulheres nada; a gente tem de ficar esperando pra servir. Vai agredir a tonta da sua mulher, a mim não... O que?
_ Você tava se abrindo toda pra ele.
_ O que foi que você disse antes? Mulher direita?
_ Você tava se insinuando para ele.
Ela o interrompeu, depois de se dar conta da comparação feita.
_ Sobre a sua mulher. Tá me comparando com ela? Ta dizendo que ela é melhor do que eu? Vai se ferrar, meu!
_ Pelo menos ela não da de cima dos meus amigos. Ela se dá o respeito.
_ Então por que você tá comigo? Fica com ela então. Por que não me procurou? Ela parou de dar pra você?
_ Ah! Vai tomar no cu porra. Não da pra conversar com você. Boca suja. Coisa feia. Parece maloqueira.
_ Eu não tava me oferecendo para ninguém.
_ Tava sim que eu vi. Não tenta me fazer de idiota não. Faltou se arreganhar pra ele.
_ Não tava, não. Mas agora eu vou dar pra qualquer um, e daí? Você não meu dono. Vou dar pro primeiro que aparecer na minha frente.
_ Foda-se. Problema é seu.
_ E você que fique com a sua querida esposa. Santa do pau oco. Mas fica sabendo que enquanto você trabalha ela recebe visitinha dos irmãos. Se você é tão macho, por que não bate no pastor ao invés de bater em mulher? Você merece ser corno mesmo. Não preciso de você. Tem um monte de homem ó _ rebolou, exibindo o corpo _ babando por esse corpinho.
Ele ficou paralisado. A palavra pastor o deixou mudo. Alguma coisa que até então estivera aprisionada no seu subconsciente se libertou subitamente.
O silêncio incomodou Vilma que ao olhar para o lado me viu encostado na parede esperando pelo elevador e instintivamente relacionou os fatos com precipitação. Ela pensou que o namorado havia se calado por conta da minha presença, mas se estivesse mais atenta teria percebido que a sua língua afiada o havia ferido profundamente.
Pararam de brigar. Ela nem percebeu que ele estava pálido, parecia ter engolido alguma coisa intragável, e tinha os olhos cheios de lágrimas quando se firmou com as duas mãos na parede.
Eu os cumprimentei e entrei no elevador como se nada tivesse visto e escutado. Ela também entrou.
_ Ele tava bêbado ontem à noite. Fica imaginando coisa. Eu não trai ele. Mania de traição. Em todo lugar que eu vou é assim. Quer controlar tudo que eu faço. Vê coisa que não existe. Eu me demorei no banheiro, só isso. A Zulmira, minha amiga, do fale conosco, sabe, ela tava comigo. Ele acha que eu sumi porque estava com o gerente.
“Ela foi dar uma rapidinha”, pensei.
_ Deixa ele. Você é muito bonita. Dá um gelo nele que você vai ver quem ele é de verdade. Ai ele vai te dar valor.
_ Largar?
_ Sim.
_ Ele não presta _ disse, relembrando algum fato. _ Gosta de bater, sabe.
_ Então...
_ Você me acha bonita mesmo?
_ Linda. Qualquer homem seria capaz de loucuras por você.
_ Acha mesmo?
_ Claro. Tenho inveja dele. Não por ser quem ele é, mas por ter ficado com você. Você merece ser admirada, bem amada. Merece carinho.
_ Nossa! Ninguém nuca me falou isso, assim... Como é seu nome? Você é tão delicado!
_ Prazer. Eu sou o seu homem.
_ Ai, meu Deus!
E aconteceu o nosso primeiro beijo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Na real

Algumas pessoas são agraciadas, a vida sempre pegou pesado. Bate forte.
Dizem que nos mais sensíveis ela gosta de dar porrada pra valer. Bate tão forte que a qualquer gigante derrubaria. Já os mais sensíveis podem cair, mas logo se levantam. Parece ser uma estratégia meio covarde, não acha? Os mais frágeis deviam apanhar menos. Mas não é assim que funciona a lei da vida para com as almas ousadas que apenas optam e insistem por sentir em si os sentimentos de caráter de origem divino. Hum!?
Vaso ruim não quebra? Não. Vaso maciço, bem forjado, não quebra.

Dizem que quanto mais frágil o homem mais ele sofre e leva porrada. A teoria se baseada na lógica do movimento do universo. O homem não é capaz de entender o seu sincronismo. Os mistérios pertencem aos deuses, ao homem cabe o encanto.

O universo dos deuses ou seres espirituais fica noutra dimensão, porém é um universo que comporta o nosso no qual pensamos pertencer e existir. É algo como que paralelo dentro do núcleo. Entretanto, nada é real; não pertencemos a ele nem sequer existimos. Tudo nesse mundo é apenas reflexo de algo ilusório. Dizem que tudo que pode ser destruído não pode ser real, porque o que é, sempre será o que sempre foi. Faz sentido. A terra pode ser destruída a qualquer momento. Consequentemente...

Por isso, prezados irmãos e irmãs, não vale a pena ser arrogante, intolerante, mesquinho. Bobagem!  Você nem é você.  
Você é mortal e eu morrerei daqui a pouco, digamos... mil anos? Muito pouco, né? Justifica-se, não sou muito frágil. A pesada mão do tempo já se faz demais pra mim. Frágil e sensível? Já fui.

Por mais longo que fosse o tempo de vida, nunca ia satisfazer ao homem. Já pensou nisso?

Cair na real é um dos episódios de humor da epopeia humana que mais agrada aos deuses. Eles se divertem. O verdadeiro você e eu deve estar assistindo a isso, nós, e dando muita risada agora. Bobo!

Em algumas pessoas as porradas da vida são mais intensas. A vida bate mais forte e machuca muito, no entanto, se a vida bate com amor,  passada a dor as lembranças são carícias. 
Mas raramente a vida bate com mãos carinhosas como fosse “poena materno” (punição materna), não acha? Ela tem sido madrasta.

Como será a mão da vida? Antes, eu acho, que era a igreja. Como bateu! Deus me livre. Hoje ela parece tão boazinha! Boazinha e arrependida. Acho que, até que enfim, ela entendeu a mensagem do livro revelação, o Apocalipse.  Será qual é a mão que castiga a humanidade hoje? A mão da justiça não é. A política? Você pode ter razão. Veja o Brasil, o Satanás tomou o poder. E o homem pensa que está no comando. Coitado! Manda porra nenhuma.


Vou ali pagar umas contas e toma uma. Bora lá! 
Ah, vai trabalhar? 
Então, boa sorte e Feliz ano novo!