Sexta-feira.
O
solo é Bach: Selon.
Lá
fora orquestra-se nas folhas de bananeira.
Notas
suaves.
Café, penso.
E
lá vem ela, de dentro de mim.
Ascende.
Meteoro,
não mais estrela cadente.
Já
sem cor. Ela não é ruiva, loira ou morena.
Tornou-se
transparente.
Todavia
arde, queima.
Dentro
de mim, tudo é assim, como ar.
Mas
do perdão ao esquecimento nenhuma ponte pode ser concluída.
Base
sólida constitui-se de amor inócuo, puro, pouco egoico,
Três
grandezas formam a inequação absoluta.
Segredos.
Um
espelho à luz do nada.
O
que se acumula no vazio só pode ser ar.
Plasma
inútil?!
Fragmentos,
vácuo, vão...
O abismo é maior que o tempo infinito.
Costuma
ser eterno um curto momento.
O
diferente.
Partículas
são inteiras; fragmentos são detritos.
De um replica-se;
doutro, no máximo emenda-se.
O completo é; o que se partiu,
miúdo, sabe-se lá.
Uma
ponte de ar sobre o abismo.
É
preciso coragem para atravessá-la.
É preciso coragem para
cruzar o deserto vão.
Pise-a
ao menos, digo.
De
repente, certas horas, um clima...
Certos dias, qualquer
fenômeno desconstrói o mundo.
Garoa, hoje, está frio.
É
sempre frio noturno no deserto iluminado.
_Vamos,
menino, levante-se! _ ordena-me um.
_ Pra quê!?
_ eu.
_ Trabalho, compromissos _ outros.
Ambos
sou eu que nada sou.
E tantos outros, entanto.
Você
não conhece Barão de Cocais, conhece!?
Você
não me conhece.
Conheceria, um dia.
Amanhã
_ ou depois _ nunca mais será a mesma.
Minas está uma angústia
só. Logo será.
Sufocada.
Somo
pedra-sabão batida, lisa, pisada.
Cosida,
cozida…
Do
fogo às cinzas desalma.
Nem
todo ouro de debaixo da terra vale mais que a paz de uma natureza
monótona.
E o que é monotonia?
Nem a folha do coqueiro
nem a água da fonte, nem o canto da cigarra, nem a brisa, nem meu
coração, nem as pálpebras e cílios se repetem em seus
movimentos.
Só lágrimas.
Melancolia,
sim, todos conhecem um dia.
Choro é choro.
Dor dói.
A
natureza é mãe, não é monotonia.
Sensaboria
é ausência de esperança.
Quanto mistério da raiz ao caule
circunda?!
A
brisa passa por entre os ramos
Uma
dança silenciosa
Hastes tombam.
São
idênticas. Parecem idênticas.
Da mesma gramínea, têm a
mesmas proporções e tonalidade;
Porém,
a flexibilidade é peculiar a cada elemento bailarino.
A
sincronicidade na desarmonia.,
A penugem, o dente-de-leão...
A
brisa sopra para todos _ com a mesma intensidade _ há harmonia.
Dança-se
conforme o som, conforme as notas chegam aos ouvidos.
Conforme a natureza dança.
Da
inocência à maturidade saltita-se como Saci, feliz.
Café
com pão, café com pão: era o barulho do trem.
Hoje é
zunzunzum. Nada,
Ninguém.
Maria
se foi. Foi-se, María.
Foice.
Maria foice.
Quantas
Marias degolam;
Quantas degoladas!
É um trem que passa.
Barão
de Cocais...
De certo há orquídeas ainda, beijos...
Nas
encostas, na relva, nos moinhos, sempre-vivas brilhando como
estrelas.
Pérolas.
E
borboletas como anjos aos olhinhos da criança.
Havia
mina ali.
Diamantes.
Na
mata, havia onça e javali.
Havia, antes da Vale, havia.
Canto
de carro e de boiadeiro.
Os beija-flores chegaram
primeiro.
Precisamos da Vale?
Tudo
passa, dizem.
O trem passa
Maria, a vida,
Tudo
fumaça.
O burro, os bois, o cangalho…
O
Brasil inteiro tornou-se Vale;
Brasileiros, cascalho.