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sábado, 25 de janeiro de 2014

Dia de festa em São Paulo



Acordei em dia de festa
Meio pálido, cansado;
O corpo pedindo a rotina, a de sempre,
Mais um dia de trabalho.

Mas é feriado.
Pra que correria?
Pra que tédio de relógio atrasado?
Pra que sair de casa?
Transporte nesses dias é demorado.

Daí, melhor vê TV.
E se vê na tela coisas sobre o homenageado:
Tem muita gente, São Paulo tem muita gente
São Paulo, gente, tem gente, muita gente.
Gente, São Paulo tem gente.

Tem gente nas ruas, nas casas, nas enchentes...
Tem gente na cracolândia, sexolândia, nas vententes;
De todo lado tem gente. Enchente.

Não tem lei eficaz que proíba a chuva de chover
Nenhum programa que impeça a alma de chorar
E para quem tem o vício do ofício, se para,
Para pra trabalhar.

Ou para pra se pensar.
E hoje bastou um tempinho, na festa desta cidade,
Pra eu me descobrir pensando;
Quem envelhece sou eu.

São Paulo não tem idade. Sempre cresce, e cresce na sua eterna adolescência; 460 anos aprendendo a andar sempre pra frente.
Enquanto as gentes envelhecem.

E envelhecem gente
As vezes anônimas, as vezes indigentes
Às vezes vivas, às vezes mortas
 Ou indiferentes.

A cidade aniversaria e quem ganha presente sou eu:
Ganhei consciência
Lembranças;
Autoafirmação.

Grato, São Paulo, por abrigar-me as trincheiras do seu coração.
Sou grato por esse dia
Que me fez lembrar que tenho sotaque
E sotaque só o tem que tem linguagem própria,
E o meu idioma é o Mineirês.

Sou grato pelo trabalho que me faz lembrar que meu trabalho de outrora era infância verdadeira.
Não, não era exploração infantil; era brincadeira séria que educa.
Lembrei-me que tenho quintal. E pássaros.
E também ainda sei imitá-los: o bem-te-vi, o sabiá, a juriti, o melro, o curió, o azulão...
Ah! eu tive um pássaro preto.

Hoje me lembrei de que tenho Minas, em São Paulo, no baú da minha solidão.
Dizem que o destino é a gente quem o faz.
Dizem.

Parabéns São Paulo.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Da forma como o amor me veio

Assim
Foi como uma fenda se abrindo
Uma esfera se partindo ao meio
Eu, de mim se afastando
E um vazio me dividindo inteiro.

A vida é assim: diversidão compacta;
Um não sei o quê abismático
Uma estranha beleza que assombra, porém é cativante,
Como acariciar pela primeira vez um elefante e depois
Depois se deixar se envolver pelo meigo olhar penetrante.

A vida é assim quando abre espaço para o amor.
Um abismo que se agiganta.
E o amor é o nada que se forma no vazio do vão consoante.
A voz que grita no silêncio profundo
Flor que se abre e fecunda o submundo.

Foi assim:
Um abismo crescente...
E o amor preenchendo o inteiro
No vão do estranho vago
Tão obscura forma me veio.

Eu e eu de mim distante
Tão perto o saber permeio.

O que mais dizer de ti que, ao dividir-me, me completa e a ti me funde e me enleio?

Anderson Silva _ O golpe fatal