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domingo, 21 de julho de 2019

Fingidor

Nosso amor, tão breve como um arco-íris, passou… Passou?
Passou o tempo, o amor ficou.
Não faria nenhum sentido a luz acesa quando o sol fez deste templo seu infinito: nascente e poente e brilho oculto.
Aqui, não existe mais escuridão.

Muito tenho fingido, sempre.
Vivo fingindo.
Finjo alegria, porque muitos são que não suportam tristeza
_ Angústia e tristeza são para os fortes.

Finjo tristeza também, porque muitos se alegram ao me ver triste.
Vivo para agradar aos semelhantes.
Não mais escondo minhas dores e aflições. Porém, isso não finjo.

Vivo para agradar aos semelhantes…
E meus semelhantes vivem me cobrando o que lhes falta.
Eles são muitos e, aliás, tem gosto muito peculiar.

Quanto a mim, alcancei o estado maior: o da indiferença.
Estou sempre bem, como um arbusto entregue às estacões.
Faça sol ou chuva, nevoeiro ou tempestade, calor ou frio, eu vivo e respiro o ar que das naturezas provém. E este me é aprazível, sempre.
Mas, para agradar ao homem, eu finjo.
O homem precisa da ilusão de felicidade, pois, somente a sensação de prazer alivia as angustias do caos.


Demoliram o templo
Demoliram a arte
Demoliram o homem
Sufocaram criatura
Apagaram o infinito.
Sem o juízo, à luz do conhecimento, quem poderá reconstruir o mundo?
Somente a chama da vida é capaz de resgatar o espírito.
Viver, pois, é mais importante do que a vida.
Levante a tua cabeça. Erga-te e siga.
De pé nossos olhos enxergam mais longe, amplia-se o horizonte, abre-se o infinito; Assim, portanto, estamos mais próximo Deus.

Eu sou intimo de Deus.
Eu sou obra da consciência Divina.
Eu sou espírito. Eu sou vida.
Eu sou luz Eu sou eterno.

Assim, pois, para eu sou não existe idade, porque não existe tempo.
Eu existo no amor. Se este migra, para aonde vai lá estou Eu sou.
Este corpo, com aparência de velho, sendo já, de muitas maneiras, abandonado, nada tem de mim, exceto um pouco de apego _ fraqueza humana.
Eu existo conforme a vontade de Deus.

domingo, 7 de julho de 2019

O fenômeno ser


Aconteceu-me este fato intrigante:
Eu mal fechara os olhos e lá estava eu, uma gota d'água.
Total silêncio.
Uma gota d'água que se forma continuamente no limbo de uma folha curvada sobre um fio d'água corrente. Esta desliza para a extremidade e se desprende e pinga num lago transparente, cristalino.
Eu podia ouvir o barulho da gota intumescer, se desprender e ir caindo até colidir no espelho d'água. E o som dos seus respingos nas pequenas ondas do lago eram quase inaudíveis. Era como um suspiro que cismo haver entre notas nas sinfonias de Beethoven.
E aquilo era eu: a gota, a vida. É como pensava eu mesmo sobre mim, sentado na pedra me observando.

Deitado, meditando e tentando dormir, senti receio de mover corpo físico e mente e quebrar aquele ritmo. Sou eu, é a vida, pensei. Senti a veia aorta dolorida, latente a jugular. Percebia gota a gota meu sangue fluindo. Em gotas?!

O que sou? Nasci. Deram-me um nome. Tive pressa de falar, andar, correr... E como corri! Acelerei o tempo.

Eis a luz do mundo. Logo queremos ser crescidos, adolescentes, jovens. Logo desejamos acrescentar umas letras a mais antes do nome. Depois, depois. Palavras, títulos, mais nomes.
Aceleramos o tempo e nele se cria vácuos, intervalos quase imperceptíveis no percurso da vida. Às vezes, de vez em quando, por sorte, somos sacudidos por uma colisão, um abalo sísmico.
Aí queremos desacelerar. Mas os pés se fizeram-se de chumbo. Estão pesados demais, presos aos minérios do chão. E você vê que correr não fora boa opção. Mais vale desprender-se e voar. Mas como?

E quer ser novamente um pouquinho mais jovem _ sonhar de regresso. Quer a juventude, a adolescência, a infância, quer correr sem sair do lugar, quer colo, quer abrigo, quer silêncio... Gota d'água.

Aí a gente conclue que quer apenas ser o que fora antes de ter nome. Ser o simples ser perfeito, tão imensamente pequeno universo divino, compacto, simples fruto do amor, chamado simplesmente milagre: presente de Deus.

Entanto, por sorte, é hora de dormir.

sábado, 25 de maio de 2019

Primeiras notas

Sexta-feira.
O solo é Bach: Selon.
Lá fora orquestra-se nas folhas de bananeira.
Notas suaves.
Café, penso.

E lá vem ela, de dentro de mim.
Ascende.

Meteoro, não mais estrela cadente.
Já sem cor. Ela não é ruiva, loira ou morena.
Tornou-se transparente.
Todavia arde, queima.

Dentro de mim, tudo é assim, como ar.
Mas do perdão ao esquecimento nenhuma ponte pode ser concluída.
Base sólida constitui-se de amor inócuo, puro, pouco egoico,

Três grandezas formam a inequação absoluta.
Segredos.
Um espelho à luz do nada.
O que se acumula no vazio só pode ser ar.
Plasma inútil?!

Fragmentos, vácuo, vão...
O abismo é maior que o tempo infinito.
Costuma ser eterno um curto momento.

O diferente.
Partículas são inteiras; fragmentos são detritos.
De um replica-se; doutro, no máximo emenda-se.
O completo é; o que se partiu, miúdo, sabe-se lá.

Uma ponte de ar sobre o abismo.
É preciso coragem para atravessá-la.
É preciso coragem para cruzar o deserto vão.
Pise-a ao menos, digo.

De repente, certas horas, um clima...
Certos dias, qualquer fenômeno desconstrói o mundo.
Garoa, hoje, está frio.
É sempre frio noturno no deserto iluminado.

_Vamos, menino, levante-se! _ ordena-me um.
_ Pra quê!? _ eu.
_ Trabalho, compromissos _ outros.

Ambos sou eu que nada sou.
E tantos outros, entanto.
Você não conhece Barão de Cocais, conhece!?
Você não me conhece.
Conheceria, um dia.

Amanhã _ ou depois _ nunca mais será a mesma.
Minas está uma angústia só. Logo será.


Sufocada.
Somo pedra-sabão batida, lisa, pisada.
Cosida, cozida…
Do fogo às cinzas desalma.

Nem todo ouro de debaixo da terra vale mais que a paz de uma natureza monótona.
E o que é monotonia?
Nem a folha do coqueiro nem a água da fonte, nem o canto da cigarra, nem a brisa, nem meu coração, nem as pálpebras e cílios se repetem em seus movimentos.
Só lágrimas.

Melancolia, sim, todos conhecem um dia.
Choro é choro.
Dor dói.

A natureza é mãe, não é monotonia.
Sensaboria é ausência de esperança.
Quanto mistério da raiz ao caule circunda?!

A brisa passa por entre os ramos
Uma dança silenciosa
Hastes tombam.

São idênticas. Parecem idênticas.
Da mesma gramínea, têm a mesmas proporções e tonalidade;
Porém, a flexibilidade é peculiar a cada elemento bailarino.
A sincronicidade na desarmonia.,
A penugem, o dente-de-leão...

A brisa sopra para todos _ com a mesma intensidade _ há harmonia.
Dança-se conforme o som, conforme as notas chegam aos ouvidos.
Conforme a natureza dança.

Da inocência à maturidade saltita-se como Saci, feliz.
Café com pão, café com pão: era o barulho do trem.
Hoje é zunzunzum. Nada,

Ninguém.

Maria se foi. Foi-se, María.
Foice.
Maria foice.

Quantas Marias degolam;
Quantas degoladas!
É um trem que passa.

Barão de Cocais...
De certo há orquídeas ainda, beijos...
Nas encostas, na relva, nos moinhos, sempre-vivas brilhando como estrelas.
Pérolas.
E borboletas como anjos aos olhinhos da criança.

Havia mina ali.
Diamantes.
Na mata, havia onça e javali.

Havia, antes da Vale, havia.
Canto de carro e de boiadeiro.
Os beija-flores chegaram primeiro.
Precisamos da Vale?

Tudo passa, dizem.
O trem passa
Maria, a vida,
Tudo fumaça.
O burro, os bois, o cangalho…

O Brasil inteiro tornou-se Vale;
Brasileiros, cascalho.