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domingo, 23 de dezembro de 2018

Viva hoje


Você quer realmente?
Faça hoje; agora.
Olhe nos olhos
Aprecie
Toque
Seja ousado
Diga o que sente, se está encantado, diga
Se está incomodado,
Peça perdão, perdoe;
Se perdoa, diga
Admire
Diga que ama
Abrace, acaricie, beije
Faça amor, agora.
Esquece o banho, por enquanto;
Afinal, o que são poucas gotas de suor se o imenso mar transborda _ que mal faz? _ faz parte.
Compromissos, suspenda-os, adie.
Depois sim, banho. Lave a alma.
Aí sim, repita tudo novamente, pausadamente,
Com calma para não perder o fôlego e o sentido.
Ah! aproveite o momento de paz.
Silêncio.

Quando pensamos ter tempo demais, e deixamos a felicidade para depois, tempo é o que nos falta de sobra para o resto da vida.

De repente silêncio




De repente luz.
De repente tudo é colossal.
Pequenos monumentos preenchem o mundo,
Não há sequer um espaço vazio.

A luz dispersara a escuridão.
Cria-se sentidos.
Aos olhos da criança tempo não existe;
Apenas movimento é o que há.
Espectros, sombras, o branco e negro compõem-se.
Nas cacofonias revela-se a vida.
Sons naturais, mecânicos, de pensamento…
Uma lágrima presa, seu trovão, e terremoto cerebral, silencioso…

O que é sem brilho é mórbido, apenas.
O que é desconhecido é algo indefinito, apenas.
Com o tempo, a luz penetra nas frestas, então,
Parece que o mundo clareia.
Nada detém sequer um raio que compõe a réstia.
Oculto sol.
Mas, inda que haja luz, é silêncio.
Tudo é silêncio,
Colossal.

No natal, gosto de ver os abraços, a euforia,
O jeito acelerado de preencher os vácuos,
O colorido que se dá aos olhos
E o ofuscamento dos olhares sem brilho.
Gosto disso.
Gosto dos abraços.
Vê-los acontecer me faz bem _ parece nó que se ata e desata sem embaraço.
Alguns parecem verdadeiros,
Mas de repente, silêncio!

Quando a gente entende que o mundo é uma ilusão a gente fica perdido.
Quando a ilusão se torna mentira a vida fica vazia.
Eles lhe roubam abraços, atenção, tempo... fazer o quê “o semelhante é semelhante”, penso.
Todos têm seus defeitos, tenho cá os meus.
Se me enlaço não mais me desembaraço _ não sem dor.

Muitos terão seu abraço...
… Mas sou eu quem verdadeiramente te ama.

Breve é essa luz, breve os sons, breve o visível e o invisível.
Breve tudo, talvez; quem sabe!
Talvez algo fique. Quem sabe!
Breve o porvir?
O que sabe a larva do seu futuro? Do quê e por que temer:
os ferrões das formigas, o bico do passarinho, o casco do bode, a pata do cavalo, a sola do sapato, a eletricidade dum raio, a solidão do casulo… voar!
Crisálida é a vida.
Voar…

Depois, silêncio.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Foda-se!

Parece o fim, mas é apenas o começo
O homem que usa arma exige respeito.
Blasfema, grita, ameaça e é eleito.
Parece o fim, mas é o começo.

A família, o grupo, autoridades batem cabeça.
Os órgãos, entidades, mestres procuram dar jeito
Todos subjugam-se _ questionam direitos.

Mas todo movimento é motim, conspiração,
São todos suspeitos.
Parece o fim, mas é só o começo.

É de humanidade que a alma é feita
E para a humanidade que o homem foi feito
E pela humanidade quisera aceito,
Humilde, egocêntrico, completo e imperfeito;
Mas por ela, aos poucos, está sendo desfeito.

Na calçada:
O mendigo exibe seu cachecol. _ achara-o no lixo.
Mas ele não tem barraca, um ponto fixo.

O morador de rua, descalço, mostra-o seu gorro.
Uma voz rouca dá-lhe um esporro.
O mendigo: "eu tenho um par de chinelos" e pensa: "sou melhor que você!"
O outro tosse, se cala, não tem o que dizer.

Ainda deitado, enrolado na coberta encardida, um casal geme.
A companheira, vaidosa, estica-se, balança os pés; teve orgasmo.
Antes, sapatos semi-novos.

Mas alguém tem moedas. Tilintam-nas.
Outro é cooperado, tem dinheiro: moedas e notas numa carteira velha.
Sarcasticamente brincam.

"Nossa, quanta pobreza!", reluz no ar um cartão.
São quase onze, ninguém tomou café da manhã.
Mas alguém esconde um pedaço de pão.

Na entrada do mesmo shopping:
Tenho celular novo.
Eu tenho carro.
Eu tenho casa e carro.
Eu tenho carro, casa, e diploma superior.
Estudei na USP.
Mestrado e doutorado FGV.
Estudei em Harvard.
Sou amigo do padrão; almocei com a família.
Ninguém ousa rebater.

Chega o ladrão: "eu tenho a arma."
Vem a polícia, a ambulância, os curiosos...
O desempregado suspira _ Obrigado Deus, eu sou feliz!
Foda-se! Cada um já fez-se senhor e juiz.