Meus livros

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domingo, 23 de dezembro de 2018

De repente silêncio




De repente luz.
De repente tudo é colossal.
Pequenos monumentos preenchem o mundo,
Não há sequer um espaço vazio.

A luz dispersara a escuridão.
Cria-se sentidos.
Aos olhos da criança tempo não existe;
Apenas movimento é o que há.
Espectros, sombras, o branco e negro compõem-se.
Nas cacofonias revela-se a vida.
Sons naturais, mecânicos, de pensamento…
Uma lágrima presa, seu trovão, e terremoto cerebral, silencioso…

O que é sem brilho é mórbido, apenas.
O que é desconhecido é algo indefinito, apenas.
Com o tempo, a luz penetra nas frestas, então,
Parece que o mundo clareia.
Nada detém sequer um raio que compõe a réstia.
Oculto sol.
Mas, inda que haja luz, é silêncio.
Tudo é silêncio,
Colossal.

No natal, gosto de ver os abraços, a euforia,
O jeito acelerado de preencher os vácuos,
O colorido que se dá aos olhos
E o ofuscamento dos olhares sem brilho.
Gosto disso.
Gosto dos abraços.
Vê-los acontecer me faz bem _ parece nó que se ata e desata sem embaraço.
Alguns parecem verdadeiros,
Mas de repente, silêncio!

Quando a gente entende que o mundo é uma ilusão a gente fica perdido.
Quando a ilusão se torna mentira a vida fica vazia.
Eles lhe roubam abraços, atenção, tempo... fazer o quê “o semelhante é semelhante”, penso.
Todos têm seus defeitos, tenho cá os meus.
Se me enlaço não mais me desembaraço _ não sem dor.

Muitos terão seu abraço...
… Mas sou eu quem verdadeiramente te ama.

Breve é essa luz, breve os sons, breve o visível e o invisível.
Breve tudo, talvez; quem sabe!
Talvez algo fique. Quem sabe!
Breve o porvir?
O que sabe a larva do seu futuro? Do quê e por que temer:
os ferrões das formigas, o bico do passarinho, o casco do bode, a pata do cavalo, a sola do sapato, a eletricidade dum raio, a solidão do casulo… voar!
Crisálida é a vida.
Voar…

Depois, silêncio.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Foda-se!

Parece o fim, mas é apenas o começo
O homem que usa arma exige respeito.
Blasfema, grita, ameaça e é eleito.
Parece o fim, mas é o começo.

A família, o grupo, autoridades batem cabeça.
Os órgãos, entidades, mestres procuram dar jeito
Todos subjugam-se _ questionam direitos.

Mas todo movimento é motim, conspiração,
São todos suspeitos.
Parece o fim, mas é só o começo.

É de humanidade que a alma é feita
E para a humanidade que o homem foi feito
E pela humanidade quisera aceito,
Humilde, egocêntrico, completo e imperfeito;
Mas por ela, aos poucos, está sendo desfeito.

Na calçada:
O mendigo exibe seu cachecol. _ achara-o no lixo.
Mas ele não tem barraca, um ponto fixo.

O morador de rua, descalço, mostra-o seu gorro.
Uma voz rouca dá-lhe um esporro.
O mendigo: "eu tenho um par de chinelos" e pensa: "sou melhor que você!"
O outro tosse, se cala, não tem o que dizer.

Ainda deitado, enrolado na coberta encardida, um casal geme.
A companheira, vaidosa, estica-se, balança os pés; teve orgasmo.
Antes, sapatos semi-novos.

Mas alguém tem moedas. Tilintam-nas.
Outro é cooperado, tem dinheiro: moedas e notas numa carteira velha.
Sarcasticamente brincam.

"Nossa, quanta pobreza!", reluz no ar um cartão.
São quase onze, ninguém tomou café da manhã.
Mas alguém esconde um pedaço de pão.

Na entrada do mesmo shopping:
Tenho celular novo.
Eu tenho carro.
Eu tenho casa e carro.
Eu tenho carro, casa, e diploma superior.
Estudei na USP.
Mestrado e doutorado FGV.
Estudei em Harvard.
Sou amigo do padrão; almocei com a família.
Ninguém ousa rebater.

Chega o ladrão: "eu tenho a arma."
Vem a polícia, a ambulância, os curiosos...
O desempregado suspira _ Obrigado Deus, eu sou feliz!
Foda-se! Cada um já fez-se senhor e juiz.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Catarse

Catarse
Salutar
Doença e cura
Desejo e necessidade
Silêncio e literatura.

E vem com a podridão o doce perfume:
a nudez _dela _, fora de ordem;
Desordenadamente perfeita.
Linda
Fera
Santa
Impura.

E o meu gozo é divino;
O dela, o teu, orgulho.

Pensamentos
Inquietações...

E lá vem ela.
Ela vem.
Aceleradamente lento
Choro, rezo, canto…

Penso nela
Gosto dela
Amo ela
_ por isso penso _,
Como um beija-flor que sonda a janela,
não sabe português, não canta, não teme;
bate asas, paira, mira, voa
e enfia o bico no orifício nela.

E ela é ateia!?
Mas ela se põe de joelho.
E ela vem.
E beija-me… beija-me sorrindo
Provoca-me careta no espelho.

E de repente o dia, a vida, a dor, tudo é lindo… perfeito.
“O que é mesmo que eu queria fazer?!” penso.
Além de beijar na boca e apalpar os peitos?
Tudo.
Mas tudo é pouco pelo que ela já me tem feito.

Sou deus
Num instante
Um ai de dor e prazer
Sou ela em mim
E ela sem mim e sem ela
Perdidos em ósculos, apelos.
Depois…
Glândulas
Feridas
E olhos vermelhos.